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domingo, 10 de junho de 2012

Uma história triste e duas versões conflitantes: a do jornalismo e a da História

by Fábio Pannunzio   

Vi muitas coisas estranhas, tristes e constrangedoras lendo os Arquivos Digitais da Revista Veja dos anos 60 e 70. Mas nada parecido com o que vocês vão ler abaixo.
Aqui, não se trata de fulanizar a crítica, voltando a responsabilizar o editor da publicação na primeira metade dos anos 70, o jornalista Mino Carta, pelo alinhamento da publicação com o regime militar. Esse atrelamento ficou bem descrito e demonstrado nos posts anteriores que compõem a série Especial Ditadura. Como esses posts já foram igualmente objeto de critica e de uma explicação do editor, darei agora um passo adiante.
    Passo a contar duas histórias muito diferentes acerca de um mesmo personagem que teve um fim trágico, o militante da VPR Massafumi Yoshinaga, jovem guerrilheiro que virou uma espécie de prenda involuntária do regime militar à custa de muita humilhação e torturas. Uma pertence ao campo do jornalismo. Outra, ao da História.
    Em 15 de julho de 1970, o rosto desse jovem foi exibido na capa de Veja ao lado da manchete “Terror Renegado”, reproduzida no alto desta página.
    A reportagem foi apresentada em editorial assinado por Mino com a seguinte justificativa: “alguns moços, ex-integrantes de bandos terroristas, descobriam e declaravam que o caminho da subversão não leva ninguém a nada”.
    A reportagem, que começa na página 16, recebeu o título “Autocrítica do Terror”. Começa descrevendo a alegria do ditador Médici com as menções elogiosas do ex-militante da VPR à Transamazônica, a suas incursões pelo Nordeste e à extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas.

Detalhe da capa: a prenda e o júbilo do regime
     “À primeira vista, seria apenas a satisfação do comandante supremo da Revolução, e portanto o mais alto responsável pelo combate à subversão, pelo arrependimento de um jovem inimigo do regime, de repente ressurgido à razão pelos acertos do próprio governo que combatia”, diz o texto da crédula reportagem.
    A revista não atentou para o fato de que não fazia sentido, naquele momento da história, que um ex-guerrilho, sob custódia dos militares, tecesse loas às obras do “Brasil Grande”. A exposição de seu rosto na capa era a foto de um troféu que a ditadura obteve com suas maquininhas de provocar arrependimento de alta voltagem — e os socos e pontapés com que os jagunços dos quartéis e da polícia costumavam brindar quem se insurgia contra o regime.
    O curioso é que a semana anterior havia sido pródiga em arrependimentos públicos de presos políticos. Que o diga o jornalista Celso Lungaretti, outra prenda colocada na mesma cesta servida pela ditadura à opinião pública por intermédio de Veja.  Traído pelos próprios companheiros, foi obrigado a exortar os jovens brasileiros a não se deixarem seduzir pela impaciência na luta em prol das reformas — e a apoiar os projetos do governo de então. “O Brasil ingressa num período durante o qual as conquistas nacionais vão, pouco a pouco, se afirmando, abrindo para a Nação um caminho de esperanças”. Ninguém desconfiou que essa frase soava estranho na boca de um ex-guerrilheiro.
    Lungaretti consumiu 34 anos de sua vida para se reabilitar. Só conseguiu isso em 2004, depois de lançar o livro “Náufragos da Utopia”. Logrou resistir ao patrulhamento e à perseguição implacável, primeiro do regime, depois dos ex-companheiros que falsamente lhe atribuíram a denúncia de um campo de treinamento da VAR-Palmares.
    Um amigo seriíssimo, pautado por sua revista para a apresentação dos “arrependidos”, se lembra muito bem do dia em que os “terroristas” concederam a estranha entrevista na sede do Segundo Exército. “Minha impressão era a de que haviam feito uma lavagem cerebral com eles”, relembra o repórter 42 anos depois. “Eles pareciam dopados”.
    Com sua morte precoce, ocorrida de maneira trágica seis anos depois, Massafumi entrou para o rol dos renegados e esquecidos até ser resgatado por Pérsio Arida. Ele escreveu um lindo artigo para a edição 55 da Revista Piauí contando o que, salvo dentro de seu ambiente familiar, pouca gente sabia: seu envolvimento com a VPR aos 18 anos de idade.
    Arida revelou que participou de um único ato “revolucionário” — a colocação de uma faixa na boca do Tunel da Avenida 9 de Julho, em São Paulo, com um bordão contra os patrões e o capitalismo. Caçado como um terrorista de alta periculosidade, escondeu-se numa garçonnière que o pai mantinha em conjunto com um amigo.
    Antes desse ato, por uma única noite, abrigou um militante a pedido de sua organização. Era Massafumi. Pérsio Arida descreve assim o encontro de ambos:
“Foi-me pedido que desse guarida, por uma noite apenas, a um homem da pesada, procurado. Era um revolucionário de verdade, que andava armado e fazia ações revolucionárias. Concordei relutantemente – uma noite apenas, ele tem que ir embora no dia seguinte pela manhã, bem cedo, antes das empregadas ou meus pais acordarem.
Ele chegou na hora combinada e entrou na casa rapidamente, como que fugindo de uma perseguição. Para minha surpresa, estava visivelmente amedrontado. Não largava a arma. Um nissei mirrado e com rosto de criança, nervoso e inseguro, completamente diferente dos revolucionários de verdade que imaginava existirem. Temeroso de qualquer envolvimento maior, expliquei onde eram o banheiro e a cozinha, dei boa-noite e foi só”.
    O próximo encontro entre ambos ocorreu nas instalações da OBAN e é descrito desta forma na entrevista à Piauí:
“Todos fomos reunidos sem aviso no pátio para ouvirmos a preleção de dois ex-terroristas. Por um instante sequer entendi a expressão – se haviam sido presos, eram ex-terroristas por definição. Outro, no entanto, era o significado – eram terroristas arrependidos.
Massafumi Yoshinaga, disse um dos militares. Um patriota que se arrependeu dos assaltos a bancos e da guerrilha. Ele, que conhece o terror por dentro, quer transmitir a vocês uma mensagem importantíssima. Ouçam e meditem. É um pregador que presta um serviço à pátria, alertando a juventude brasileira para os riscos do comunismo e as ilusões da luta revolucionária.
Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa. Estava exatamente na minha frente. Impossível que não me tivesse reconhecido”.
    Pérsio Arida temia que o japonês arrependido o delatasse. Conseguira ler trechos de um relatório e baseara em informações que os militares já conheciam. Até então, havia sido bem-sucedido em sua estratégia de dissimulação para não ser levado à tortura. Diante da troca de olhares com Massafumi, passou a esperar o pior:
“Passei aquela noite em claro, esperando o momento em que fossem me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. Havia escondido um terrorista em minha casa, portanto era cúmplice do terror, e não havia dito nada sobre o nissei no meu depoimento. Os caras iriam me bater para saber quem mais se escondera na minha casa.
O dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro e outro. Nada. Reinterpretei a situação: Massafumi Yoshinaga deve ter sido barbaramente torturado, pensei, faz esse papel de arrependido só para se livrar dos suplícios. É tudo fingimento. Por isso não me denunciou, por isso não nos permitiram conversar com ele a sós. Aquele discurso tinha sido um vexame público, vergüenza ajena, expressão concisa e intraduzível do espanhol, mas nada além de um vexame, uma estratégia de sobrevivência”.
    Arida ainda se depararia com Massafumi duas outras vezes. Foram encontros indiretos, por intermédio das páginas de veíuclos da chamada grande imprensa.
“Um dia encontrei, largada num canto e amarelada pelo passar do tempo, uma Veja com Massafumi Yoshinaga na capa e o título “O terror renegado”. A reportagem contava que o presidente Emílio Garrastazu Médici expressara, em audiência com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, sua satisfação com o depoimento público e espontâneo do ex-terrorista. (…)
Li depois num jornal que terminou se suicidando. Suicídio de vergonha, de culpa e arrependimento, haraquiri de uma alma que não encontrava mais lugar neste mundo. Terrível como todo suicídio. Mas quem chora a morte de um traidor? Da minha parte, prefiro guardar dele apenas a memória daquele encontro furtivo de olhos no qual, mesmo tendo me reconhecido, nada revelou ao militar que com tanto orgulho o apresentou como um verdadeiro patriota”.
    Eis o que aconteceu a Massafumi Yoshinaga. Seis anos depois, devastado pela vergonha e pela depressão, pôs fim à própria vida após duas tentativas de suicídio malsucedidas. As declarações públicas de arrependimento, que segundo Veja causaram tanto júbilo ao governo militar, foram obtidas mediante a utilização dos mais cruéis e abjetos métodos de tortura. Deixaram nele uma ferida profunda e mortal, algo como um cancer que vai fincando tentáculos em todos os tecidos e órgãos para, ao final, matar o hospedeiro. A vergonha pela falsa confissão do arrependimento que não lhe restituiu a vida — apenas adiou a morte por alguns anos de muito sofrimento.
    É impossível saber quanto o relato de Veja, que mimetizava a grande conquista do regime, teve responsabilidade sobre o quadro mental que se instalou no ex-guerrilheiro arrependido. Mas pode-se imaginar o estrago que essa exposição provocava à época.  Afinal, que espaço vital teria restado ao militante Massafumi Yoshinaga depois de ser apresentado ao País como um dos trunfos do regime dos quartéis, um caso de conversão quase religiosa ?
    Ao forjar um depoimento público para se livrar das sevícias e do suplício, não restou a Massafumi alternativa a não ser, como na letra de Cazuza, encontrar abrigo no peito de seu traidor. Apesar de ter tido sua pena anulada, o ex-guerrilheiro permaneceu em poder dos torturadores — não mais porque representasse uma ameaça ao regime, e sim para protegê-lo da sanha do justiçamento dos próprios ex-companheiros no tribunal sumário da insurreição.Apanhando da direita, perseguido pela esquerda, envergonhado pelo que fora forçado a fazer, o ex-militante buscou no suicídio a redenção de uma honra aviltada pelas sevícias morais e físicas que lhe haviam sido impostas.
    Outros tiveram altivez para enfrentar o legado daquela execração. Aí está o combativo Celso Lungaretti como testemunha das dores provocadas primeiro pelas pancadas, depois pela estigmatização e patrulhamento, que entregou metade de sua vida à busca da reabilitação moral — porque delatar companheiros é uma acusação que se inscreve mais no campo da moral do que no pragmatismo da política e da ideologia, onde produz seus efeitos.
    Entre o relato comprometido de Veja, o suicídio de Massafumi Yoshinaga e o testemunho de Pérsio Arida há uma larga zona de fronteira que separa o jornalismo da História. A visão míope do jornalista está conformada pelo pensamento hegemônico que determina a linha editorial. A História, muito mais ampla, repõe, com elementos de lucidez ausentes na interpretação parcial e apressada dos fatos transformados em notícia, algo que se aproxima da verdade. É o caso da desventura narrada neste post.
    Como se vê, entre a verdade cristaliza num fotograma da factualidade política e o filme todo da História há uma distinção abissal. A profundidade desse abismo pode ser depreendida da releitura dos textos produzidos à época.  Este blog, que não descontextualiza declarações para construir a crítica política, tem política a publicação dos originais referidos para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Para os que quiserem se dar ao trabalho de fazer esse exercício de prospecção, reproduzo abaixo a íntegra da reportagem de Veja. O download do material em formato PDF pode ser feito aqui.
    O artigo de Pérsio Arida pode ser lido diretamente no site da Revista Piauí. Para chegar a ele, basta clicar aqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Uma história dos Anos de Chumbo


Meu avô se chamava Afrânio Francisco Azevedo. Era comunista e espírita kardecista, uma coisa que muita gente não entende até hoje. Mas nos anos 40 a 60 era perfeitamente possível. Tanto que ele era amicíssimo de Xico Xavier
Luis Carlos Prestes

     Uma história dos Anos de Chumbo Vou contar o que fui fazer neste fim-de-semana — e uso a oportunidade como pretexto para contar um pouco da minha hstória. Há alguns leitores que pedem isso há muito tempo — uns por curiosidade sobre a minha biografia, outros buscando elementos para atacá-la. Vou saciar as duas partes.
    Fui visitar minha família em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Meu irmão mais novo, Eduardo, comemorou um feito incrível: bodas de prata, 25 anos de casamento feliz com sua grande companheira Patrícia. Fizeram uma festa singela no meio de um campo de girassóis. Linda mesmo.
    O lugar onde houve a festa é uma fazenda que está em com minha família desde 1902, 110 anos atrás. É uma propriedade pequena onde Eduardo e a minha mãe ganham a vida plantando todo tipo de coisa: soja, milho, ervilha, feijão… e girassóis, a lavoura mais linda que eu já vi. O relevo é muito plano. Fica a mais de 800 metros de altitude. No outono o por-do-sol é espetacular.
    A vegetação nativa é baixa e retorcida. Um cerrado ralo que, num primeiro momento, assusta quem está acostumado com a exuberância da Mata Atlântica. A beleza do cerrado só se descobre observado os detalhes. As flores, por exemplo, são minúsculas, mas são espetacularmente bonitas.
    Foi observando detalhes assim que minha mãe, que se chama Martha Pannunzio, colheu material para compor uma linda e premiada obra literária infanto-juvenil. São dela ’Veludinho’, ‘Os Três Capetinhas’, ‘Bicho do Mato’, ‘Era Uma Vez Um Rio’, ‘Bruxa de Pano e ‘Você Já Viu Gata Parir’. Esses livros lhe valeram os prêmios mais prestigados do País: INL, APCA, Jabuti.
    Ela e minha irmã caçula, Lavínia, tocam também um projeto teatral muito bacana. Fazem montagens adaptadas dos livros da Dona Martha. Concebem os espetáculos, conseguem patrocínio privado e fazem encenações profissionalíssimas. O público são os alunos de escolas públicas, que não pagam ingresso e têm o transporte garantido pelo projeto. Mais de 80 mil crianças tiveram assim seu primeiro contato com o teatro.
    Hoje as coisas parecem ordeiras e harmônicas em Uberlândia. A vida é simples, alegre e produtiva. Mas houve uma data, 1º de abril de 1964, em que elas começaram a ficar bem difíceis.
    Meu avô se chamava Afrânio Francisco Azevedo. Era comunista e espírita kardecista, uma coisa que muita gente não entende até hoje. Mas nos anos 40 a 60 era perfeitamente possível. Tanto que ele era amicíssimo de Xico Xavier e Luis Carlos Prestes — que foi padrinho de casamento da minha mãe. Leia tudo. Beba na fonte.






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

LAURITA NA WEB

Por Laurita Mourão

Querido Sergio, grande Canga !

     O jornal "O Globo" do dia 11 de agosto corrente, publica, como é de praxe às quintas-feiras, a sempre estupenda crônica do Luiz Fernando Veríssimo.


    Sob o título "O Espírito da Coisa" ele condena o ex-Ministro Jobim, um civil, de ter feito publicamente uso do uniforme militar parecendo não ter entendido que o "espírito da coisa" é justamente ter um civil ocupando a Pasta das Forças Armadas, e continua escrevendo: "A maior falha do Jobim como ministro, talvez se deva à sua envergadura. Se fosse um Ministro da Defesa menor vestindo aquela farda de campanha, o erro seria menos conspícuo" e continua mais adiante: "Acho até que, mesmo em missões no mato, o ministro deveria ir de terno e gravata. E vá lá de botas. Mas civis". 


     Já eu, como mulher, penso como o grande Proust que, no seu livro "Du Côté de Chez Swann", à página 123, da "Collection Folio Editions Gallimard, de 1954", opina que:
"Même les femmes, qui prétendent ne juger un homme que sur son physique, voient en ce physique l'émanation d'une vie spéciale. C'est pourquoi elles aiment les militaires, les pompiers; l'uniforme les rend moins difficiles pour le visage; elles croient baiser sous la cuirasse un coeur différent, aventureux et doux; et un jeune souverain, un prince héritier, pour faire les plus flatteuses conquêtes, dans les pays étrangers qu'il visite, n'a pas besoin du profil régulier qui serait peut-être indispensable à un coulissier".
(Tradução livre: "Até as mulheres, que pretendem julgar um homem apenas pelo seu físico, vêem nesse físico a emanação de uma vida especial. É por isso que elas amam os militares, os bombeiros; o uniforme os torna menos difíceis em relação à aparência; elas acreditam beijar, sob a couraça, um coração diferente, aventureiro e doce; e um jovem rei, um príncipe herdeiro, para fazer as conquistas mais lisonjeiras, nos paises estrangeiros que ele visita, não precisa do perfil regular que seria talvez indispensável a um civil"). 


     E termina o Veríssimo: "O Jobim, vestindo-se como soldado, mostrou que não tinha entendido o espírito da coisa, que é um Ministro da Defesa ser um civil, ou então estava apenas cedendo a um impulso juvenil e, neste caso, está perdoado."

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O dia que durou 21 anos

Três episódios revelam os bastidores da participação dos Estados Unidos
no golpe militar de 64

     Os que viveram a ditadura militar brasileira, os que passaram por ela em brancas nuvens e os que nasceram depois que ela acabou. Todos podem conhecer melhor e refletir sobre esse período, a partir da nova série “O Dia que durou 21 anos”, que a TV Brasil exibiu nos dias 4, 5 e 6 de abril de 2011.
     Em clima de suspense e ação, o documentário apresenta, em três episódios de 26 minutos cada, os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil. 

     Pela primeira vez na televisão, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como Top Secret, serão expostos ao público. Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte dessa série iconográfica, narrada pelo jornalista Flávio Tavares. Leia mais aqui.





sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cuidado con la perrera!!!

Lazeros da Perrera Municipal de Córdoba, Argentina (1965)
Outro dia assisti a uma cena inusitada no centro de Florianópolis. Na rua Victor Meirelles, protagonista de um artigo publicado aqui sobre a criminalidade e o abandono do centro da cidade. (Florianópolis cidade sem lei).
Um kombi da Vigilância em Saúde, da Prefeitura, estacionou na esquina e desceu um senhor, devidamente identificado com crachá, e começou a conversar com duas pessoas que estavam ao lado de um cachorro que descansava no meio da calçada. O animal é propriedade dos moradores de rua que habitam a calçada em frente ao antigo restaurante Kafa.
O "vigilante" conversou, conversou e depois pediu às pessoas que ficassem ali, ao lado do bicho, que ele iria buscar uma correia para prendê-lo. Seria levado para o Centro de Zonoses onde seria castrado e depois devolvido aos donos, na rua. Tudo isso falado em voz alta em frente ao cachorro que continuava deitado indiferente em sua preguiça.
Fiquei observando a cena e jamais imaginei que o animal entendesse português. Pois o vigilante saiu, foi até a "carrocinha" e buscou uma guia. Quando chegou perto o cachorro simplesmente levantou e saiu displicentemente para o outro lado da rua onde se acomodou na calçada em frente. Só restou ao vigilante o comentário: - Eles são muito inteligentes!

Vigilante frustrado. dia da caça!
O título deste post está em espanhol pois a "carrocinha" me lembrou a expressão muito usada por meus amigos uruguaios no tempo da ditadura militar naquele país. Lá, carrocinha se chamava perrera. Desde guri sempre tivemos cuidado com la perrera, pois se um cachorro nosso estivesse solto na rua, corria o risco de ser pego pela perrera.
Mais tarde, no período da ditadura, apelidamos as caminhotes fechadas da polícia de chanchitas, porquinhas, usadas pelos porcos.
Mas o nosso código para alertar os companheiros de clandestinidade sobre a presença de alguma chanchita nas imediações era: - Cuidado con la perrera!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

APARÊNCIAS OFUSCANDO A VERDADE

Texto do Tenente do Exército Coronel Pimentel, que está na Escola de Estado-Maior em Honduras. Pimentel é irmão do Capitão Nascimento que inspirou o filme "Tropa de Elite". Trabalhava em Honduras quando Zelaya foi apeado do poder. Segundo Pimentel, está na Constituição de Honduras que a reeleição é vedada e que quem tentar instaurá-la será considerado "traidor da pátria" e deve ser destituido. A destituição de Zelaya foi decidia pela Suprema Corte do país e referendada pelo Congresso Nacional por uma votação de 123 votos contra apenas 5 votos. Segundo Paulo Pimentel, Zelaya liderou uma multidão na invasão de instalações da Força Aérea onde estavam urnas para o plebiscito que decidiria sua reeleição. As urnas vinham da Venezuela mandadas por Hugo Cháves. Uma graça esses bolivarianos. E falam em democracia.

Como diria o saudoso Tarso de Castro: - Meus sais, por favor!

Zelaya e o padrinho Cháves

1. Introdução

A imagem de militares invadindo a casa de um presidente legitimamente eleito, sua detenção e imediata expulsão do país, reveste-se de todos os ingredientes de algo que, hoje em dia, causa forte repugnância na comunidade internacional. Difícil de explicar, quase impossível de justificar.

O quadro de um golpe de Estado patrocinado por militares está tão bem pintado, e reflete tão claramente, que se torna desnecessário, para muitos, fazer um esforço em ver a cena de outro ponto de vista, o que ofusca a verdade. Em nome dela, e por acreditar que realmente nem sempre os fatos falam por si mesmos, vou me atrever a mostrar esta mesma imagem desde outro ângulo.

Definitivamente, o que aconteceu em Honduras (e segue acontecendo) não guarda relação com o que se noticia na imprensa internacional. Se realmente conceitos tais como autodeterminação dos povos e soberania têm algum significado - e estão acima do pragmatismo que rege a relação entre os Estados - talvez valesse a pena o esforço em enxergar a cena descrita no primeiro parágrafo sob a ótica dos demais poderes do Estado de Honduras, de sua Constituição e, principalmente, da grande maioria do seu povo. Leia a análise completa aqui.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Morre mulher que inspirou Beatles em "Lucy in the Sky with Diamonds"

Lucy O'Donnell, a menina que em 1966 inspirou os Beatles a comporem "Lucy in the Sky with Diamonds", morreu, aos 46 anos. Lucy tinha lúpus e, na última terça-feira, não resistiu aos sintomas da doença, informou hoje a Fundação Saint Thomas, que financia pesquisas na área de saúde.

Segundo Julian Lennon, filho mais velho de John Lennon, a música foi inspirada em um desenho feito há mais de 40 anos por Lucy, uma colega do jardim de infância.

Julian levou o desenho para casa e, segundo sua versão, mostrou ao pai, a quem disse: "É Lucy no céu com diamantes". Leia mais.


Valentões x torcida

domingo, 27 de setembro de 2009

Polanski é preso na Suíça e pode ser deportado para os EUA

O cineasta Roman Polanski foi preso na Suíça por um suposto crime de cometido há 31 anos, afirmou em nota o Festival de Zurique. A informação foi confirmada pelo porta-voz do Ministério da Justiça suíço. A detenção do cineasta, ocorrida na noite deste sábado (26), está relacionada a um mandado de prisão emitido por autoridades norte-americanas em 1978, por suposta relação sexual com uma adolescente. Segundo o porta-voz, a detenção ocorreu por um um pedido de busca internacional efetuado em 2005. Leia mais.

Fotógrafo da Grande Depressão



Mais uma grande atração nos 170 anos do surgimento da fotografia. A partir de 1 de outubro o museu de Arte de Sao Paulo (MASP) estará exibindo 120 imagens Walker Evans, morto em 1975. Evans foi o fotógrafo que registrou a desvastação econômica e moral dos Estados Unidos durante a Grande Depressão.

Fotografia em Debate

Foto de Louis Jacques Mandé Daguerre

Durante o mês de agosto o Cangablog, com a participação do repórter fotográfico Dario de Almeida Prado Jr. comemorou os 170 anos do surgimento da fotografia . A descoberta de Louis Jacques Mandé Daguerre, 19 de agosto de 1839, foi apresentada à Academia de Ciências da França, em Paris. O maravilhoso inventoera um processo completo que permitia gerar e fixar imagens através de um processo físico-químico. A palavra fotografia veio mais tarde. No início, merecidamente, foi a daguerreotipia a novidade.

Esta foi a segunda vez que, comemoramos o surgimento da fotografia. A primeira foi em 1999 quando realizamos a I Semana de Fotografia de Florianópolis, nos 160 anos de Fotografia. Há época tivemos a participação de alguns fotógrafos daqui e do reconhecido profissional João Bittar, pioneiro da fotografia digital no Brasil em jornais diários. Bittar era editor de fotografia da Folha de São Paulo.


A comemoração da data, com a criação de um blog especial sobre fotografia, foi bastante feliz pois mostrou o interesse de centenas de leitores que acessaram o blog diariamente. Mas ficamos contentes em saber que não fomos os únicos a dar importância a tão importante acontecimento.


A UDESC também está destacando os 170 anos da fotografia através do evento Fotografia em Debate a realizar-se nos dias 6, 7 e 8 de outubro no auditório do CEART na Udesc. O evento é gratuíto e as incrições podem ser feitas pelo e-mail cursos@duoarte.com ou pelo fone: (48) 99351533

Programação:

06/10 (terça -feira) - Fotojornalismo
17:30 - Filme: Abaixando a Máquina – Ética e dor no fotojornalismo carioca
19:00 - Filme: Evandro Teixeira: Instantaneos da realidade (84 minutos)

07/10 (quarta-feira) - Fotografia publicitária e social
16:00 - filme: Sobre fotografia de Cartie Bresson
17:10 - Filme: Cortina de Fumaça (112 min)
19:00 - filme: Annie Leibovitz – A Vida Através das Lentes (79 min)
20:20 - Debate com: Marquito e Plinio - FOTOMUNDO

08/10 (quinta-feira): Fotografia documental

17:30 - Filme: Nascidos em Bordéis (85 minutos)
19:00 - Filme: Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos (84 minutos)
20:30 - debate com o fotografo: Esdras da Luz - CEART/UDESC

sábado, 26 de setembro de 2009

Em anúncio de TV, Governo pede documentos sobre a ditadura

A partir do próximo domingo (27/09), o Governo Federal irá veicular comerciais na TV para estimular a entrega de documentos sobre a ditadura militar (1964-1985). Serão três filmes, com depoimentos de familiares de desaparecidos políticos. O objetivo é reunir informações que permitam a localização dos corpos.

“Qualquer que seja a divergência ideológica, histórica política sobre o período, ninguém pode ter divergência sobre o direito de localizar os restos mortais e sepultar", afirmou o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, à Folha de S. Paulo.

O material coletado será encaminhado para o Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil – Memórias Reveladas, do Arquivo Público Nacional. (do comunique-se)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

BOLCHE DESMENTE BOLCHE

Cerca de 20 mil pessoas, segundo o jornal El Heraldo, marcharam hoje à tarde pelas ruas de Tegucigalpa em sinal de protesto contra a interferência de outros países em assuntos de Honduras. Na frente da embaixada brasileira gritavam:
Lula! Lula! Leva embora esta mula!

Por Janer Cristaldo

Uma mentira, quando envolve vários mentirosos, tem de ser bem combinada. Ou então acontece o que está acontecendo. Interrogado pela Folha de São Paulo se foi Hugo Chávez quem planejou a volta de Zelaya a Honduras, diz o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia:

- Não acredito. Escuta, um sujeito que foi presidente da República, que tem o prestígio que ele tem em Honduras... Pela madrugada! Se não tiver esquema, é melhor ficar em casa. Ele certamente tem um esquema suficientemente forte para mobilizar pelo menos metade dos hondurenhos. Que esquema teria o Chávez? Não, não, isso foi obra dos próprios hondurenhos.

O repórter da Folha insiste: não é difícil de acreditar que o Zelaya fez tudo sozinho, chegou lá, bateu na porta da embaixada e foi entrando? Garcia não abre mão de sua tese:
- Zelaya é muito mais esperto do que alguns querem fazer pensar, com muita independência, com muita personalidade. Leia artigo completo. Beba na fonte.

"Piratas" defendem liberdade total na internet


Os especialistas consideram que os partidos reduziram a Internet a um meio de comunicação, sem aproveitar o potencial das plataformas para organizar atos e descentralizar a ação política. Os Verdes e o Partido Liberal tiraram certo proveito da Rede. Mas, para os analistas, o único partido que se beneficiou da Internet é o "Piratas", que já tem entre 2% e 3% das intenções de voto. O verdadeiro debate em torno a Internet, sobre sua regulação e adaptação dos direitos dos autores, ficou com o pequeno partido "Piratas". A manifestação "Pela Liberdade em lugar de medo" reuniu recentemente, em Berlim, 20 mil pessoas para protestar com as recentes ingerências legislativas na Web.

PARECE FÁCIL, MAS NÃO É

Por Olsen Jr.

Cansei da maçaroca. Lembrei de um livro do Salim Miguel ”Sezefredo das Neves, poeta”, que começa com o narrador afirmando que recebeu um “original” para ser lido mais tarde e que o apelidou logo de “a maçaroca”.

A maçaroca, no meu caso, é constituída de uma série de anotações feitas por aí e guardadas em um dos bolsos da calça. As calças mudam e as tais anotações continuam se amontoando sem que tome uma providência. São ideias para uma crônica, um conto, um dito espirituoso feito na hora apropriada, uma frase que capta um momento bem humorado, enfim, algo que pode ser trabalhado posteriormente. O suporte para tais anotações pode ser um guardanapo, um extrato bancário, um comprovante da medida de peso/altura de uma farmácia, uma nota de compra, um ticket de supermercado ou de posto de gasolina, o verso de um cartão de visitas, e se não tiver nada, a palma da mão também serve.

Hoje peguei aquela papelada toda e disse: chega! Só tomei a iniciativa, entretanto, quando um amigo me viu deixar cair tudo quando fui pagar o café no bar... Ele indagou “que maçaroca é essa?”.

Well, é de assombrar como se parte de coisinhas simples para se construir uma obra.

Muitas vezes é só um lembrete mesmo: “policial Henrique (livro)”... Lembrei que fui socorrido por um policial num acidente de carro. Quando soube que era um escritor disse que gostava muito de ler e eu prometi um livro. Na hora não tinha nenhum. O bilhete deve estar a uns quatro anos passando de bolso em bolso sem que cumpra com o prometido, vou fazer isso hoje; um outro diz: “filme do Cantinflas/ajudante de circo/pesos”, trata-se do comediante Mário Moreno, ele fazia o papel do ajudante, a atração principal era um fisioculturista (vestido com pele de tigre) que levantava vários artefatos em que estavam escritos em cada um o “seu” peso (150kg, 200kg,) e depois da encenação, o Cantinflas entrava e pegava todos eles com uma das mãos (eram de isopor) e o cinema vinha a baixo de riso, lembro a propósito de um colega de ginásio que assistia ao filme na cadeira de trás da minha e passava o tempo todo cantarolando a música “leva eu sodade”, um dos versos que dizia “Oi leva eu... eu também quero ir”... Dos “Cantores de Ébano” que fez sucesso na década de 1960... No verso, um lembrete “Eliane & Elias/ Piano” seguido de um número de telefone para contato... Cenas que poderiam integrar uma obra de ficção.

Numa comanda de hotel indicando como chegar a feijoada do Bar do Zé em Joinville, estava o texto “A mesma “coisa” feita de outro jeito, tem novo sentido”. Não me lembro do que se tratava, a “mesma coisa” para mim sempre foi um caminhão carregado de melancias, mas depois que os japoneses “criaram” a melancia quadrada (vi isso na internet) nem se pode usar mais a tal expressão.

Tinha elucubrações bem feitas e que só estavam ali porque não tivera disposição para transportá-las para um caderno onde faço tais registros, por exemplo, “Procuro ignorar os elogios e as críticas que fazem ao meu trabalho porque ambos são mendigos que me pedem esmolas: o elogio de minha vaidade e a crítica de minha ira. Tanto um como outro me empobrece”.

O meu favorito era um que afirmava “Os homens de talento, digo, os gênios, deveriam ser mais pacientes, afinal nós temos a eternidade pela frente”...

Tudo isso parece afetação, mas o que é que se pode esperar de alguém que pensa o dia inteiro? Claro, tinha os bilhetes que me faziam cair na realidade, esse que está em minhas mãos agora, para ilustrar, dizia “Pagar a ótica (R$175,00) no dia 10”, consulto o calendário e já estamos no dia 22... O que “eles” iriam pensar do meu atraso? Talvez, na melhor das hipóteses: “paciência, os filósofos são distraídos, não são?”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PF investiga desembargador, vereador e prefeito como chefes de quadrilha de rede de caça níqueis


Documentos da Polícia Federal com transcrição de conversas telefônicas vazam na internet e comprometem desembargador Carlos Prudêncio, seu filho Roberto Prudêncio Neto, vereador e Secretário Regional do governo Luiz Henrique em Brusque e o prefeito da cidade Ciro Rosa. As investigações fazem parte da Operação Arrastão da Polícia Federal que já fez a prisão de 7 policiais militares entre eles um ex-comandante do batalhão de Polícia de Brusque, 4 policiais civis, dois delegados de polícia que atuavam na região de Brusque, Itapema, Canelinha e São João Batista. Setores da PF descontentes com as tentativas de abafar o caso quando as investigações chegaram nos figurões e provavelmente chefes da quadrilha, resoveram divulgar os documentos (relatório com 85 páginas) que mostra o envolvimento de altas autoridades estaduais no caso.

Veja os documentos abaixo e se estarreça com a abrangência da criminalidade nos meios jurídico, parlamentar e executivo de SC.Veja as 85 páginas do relatório da investigação da PF sobre o caso. Clique aqui!