quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Caçadas, mordidas e brutalidades

   Leopoldo, esse era o nome dele. Torto, cego do olho direito, era marido da Maria Pitiça. Moravam no Passo do Leão, às margens do Rio Quaraí, fronteira com o Uruguai, perto de Uruguaiana (RS), quase desembocando no Rio Uruguai, na tríplice fronteira.
   Meu avô, Rodolfo Rubim, tinha um grande armazém aí. O lugar era de trânsito intenso de mercadorias para o Uruguai. Fumo de rolo, feijão, cachaça, erva mate e tudo o mais que era barato no Brasil.
   Leopoldo era "padrinho" do meu pai, Waldemar, gurizote arteiro como todo o guri de campanha. Várias vezes se safou de apanhar do vovô Rodolfo, o "velho", pelas mãos do Leopoldo e da Maria Pitiça, que segundo a mãe que a conheceu, era um amor de pessoa. Pequena e ligeira. A mãe e o pai moraram no Passo do Leão, em uma pequena casa de madeira onde, atrás, corria um riacho sobre uma grande laje de pedra: - Um sonho, Sergio Antonio, ainda me repetiu há poucos dias, a mãe.
   Bem, feitas as apresentações, conto tudo isso porque hoje caminhando pela Av. Beira Rio, em Blumenau, me deparei com uma quantidade de capinchos e capivaras com seus filhotes. Fiquei impressionado com a  mansidão dos bichos. Estava acostumado a persegui-los na mata, em silêncio, buscando pegadas e esterco novo. Bicho arredio, não foram poucas as vezes que escaparam de mim submergindo no rio. Cacei bastante, quando guri, nos matos do Rio Arapey, no Uruguai.

   Bem, o Leopoldo, padrinho do pai, era caçador de capincho. Na verdade caçava para tirar o couro, que depois de curtido era vendido em Uruguaiana. Vivia disso!
   O pai, depois de certa idade, começou a acompanhar o Leopoldo nas caçadas que duravam dias. Saiam pelo Rio Quaraí até a foz quando entravam no grande Rio Uruguai e aí desciam em um pequeno barco com  motor de pôpa, que chamava de chalana, costeando o mato em direção à Ilha Brasileira.
    O pai sempre contava uma história que eu achava incrível. O Leopoldo tinha um "mosquetão" do exército adaptado para  calibre .44. De dentro da chalana, ao avistar um capincho, na margem, em terra, dava o tiro - geralmente certeiro - e imediatamente se jogava no rio amarrado pela corrente à meia espalda, para pegar o animal antes que afundasse.
   Depois, era corear o bicho e estaquear o couro ao sol e assim continuavam a descer o Rio Uruguai repetindo essa prática. Do animal morto, além do couro tiravam um naco de carne que colocavam em uma lata de banha, do próprio capincho, e se alimentavam daquilo nos dias seguintes.
   Quando chegavam a um número que o Leopoldo achava suficiente, retornavam margeando o rio e recolhendo os couros curtidos ao sol.
   Certa vez, Leopoldo atirou em um grande capincho, que ao sentir o balaço se jogou no rio e foi imediatamente seguido pelo caçador amarrado na corrente. O tiro não havia sido aquele certeiro, atrás da paleta, no coração. Ao pegar o bicho pela pata, o animal se deu volta e atracou os dentes na perna do Leopoldo.
   Contava o pai que primeiro viu o sangue brotando da água e depois, o Leopoldo gritando e puxando o capincho com o seu braço curto, forte como um tronco.
   O pai rumou a toda a velocidade para a cidade enquanto Leopoldo colocava sal grosso e banha na carne aberta da perna.
   Um aventura!


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