terça-feira, 1 de março de 2016

DESPEDIDA

Conto do Emanuel Medeiros Vieira
– Ele parecia triste, alguém falou.

   O cunhado esperou em silêncio do outro lado da linha. Murmurou algo, parecia um grunhido.
– Foi durante o café da manhã. Agora no domingo.
– Foi?
– Foi.
   Quem havia ligado, continuou – Comeu uma fatia de pão integral, sem nada, nem manteiga, e tomou uns goles de um café preto. Rapidamente. E continuou olhando para a parede.

   O interlocutor não sabia o que dizer. Mas desta vez perguntou
– Tomou o remédio para o coração?
– Tomou.


   O primeiro falar – continuou.
– Aí ele foi caminhar.
– A cirurgia vai ser na terça-feira? perguntou aquele que havia recebido a ligação.
– Vai.

   O ser objeto da conversação estava caminhando. Olhando para o gramado, para as flores e para as árvores como nunca havia olhado. Olha mais.
   Parou um pouquinho. Contemplou uma árvore maior. Um cachorro vadio. Adolescentes com uniformes escolares. Empregadas comprando pão.

   Um zelador iniciando a sua jornada diária.

   Até o seu último dia, não esqueceu uma babá anônima, empurrando um carrinho com uma criança.
   Toda a sua vida passou naquele instante: ele menino, ele adulto, os casamentos, os filhos, as viagens, a rotina.
   Aquele carrinho com uma criança foi a sua última visão no mundo. (Não houve tempo para a operação.)
   No fundo, sempre quis ficar quieto e sair da agitação do mundo.
   No enterro, o irmão lembrou-se das palavras do cunhado: “Ele parecia triste”.

Será? Ou sempre fora assim?
Quem saberá?

   Agora, nada mais importava para o morto. Saíra do mundo. Tudo o que acontecesse, não mais lhe diria respeito. Seus segredos estavam todos debaixo dos sete palmos.

   O pão integral sem nada, o café preto.

   Depois – pouco antes da morte: o gramado, as flores, as árvores, o cão vadio, uniformes escolares, moças saindo da padaria, e aquele carrinho de bebê.

   Tudo – sem ele – continuava com antes.

   À objetividade inerte das coisas, era indiferente o seu ficar ou o seu ir.
   Depois do enterro, o cunhado só via a mesa, o pacote de pão pela metade, o vidro de remédio, e pensou na aporrinhação de ter que fazer um inventário.

   Só ele não estava mais lá.

Um comentário:

Maira Medeiros disse...

Lendo esse texto me sinto assistindo um filme (drama)...no final, lágrimas :'(
Ah...Emanuel!!