segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma questão de cultura

por Carlos Nina*
 
O que o País está vivendo é fruto da educação que temos.
Um dos delatores da Operação Lava-Jato, que está expondo um esquema fantástico de corrupção, foi explícito: é cultural.
PC Farias, famoso tesoureiro da campanha do ex-Presidente Fernando Collor, ouvido em CPI no Congresso Nacional, já fizera a revelação daquilo que todos sabiam – e continuam sabendo: negar a corrupção no processo eleitoral é hipocrisia.
Outro dos delatores da mesma Operação Lava-Jato confirmou serenamente essa afirmação - que ninguém se atreveu a negar, por ser tão óbvia -, apesar do discurso de todos, que transforma a Justiça Eleitoral em cúmplice. Respondem, sempre, em uníssono, partidos e candidatos, eleitos ou não:
- Todas as doações recebidas foram lícitas e aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Chegamos, assim, a uma situação em que não sobra ninguém. Cada esperança se transforma em desilusão.
São todos honestíssimos. Um mais do que outro. Como se pudesse haver gradação de honestidade. Até agora há apenas um que admite não ser o mais e proclama: Só Cristo foi mais honesto do que eu!
Na verdade, são todos inocentes, porque as delações não provam nada e, mais do que honestos, a maioria deles é muito mesmo é esperta e dos bilhões desviados dos cofres públicos só voltarão alguns milhões - bagatela diante do tamanho do rombo causado no dinheiro suado pago pelos brasileiros através de encargos de toda natureza.
Lembra-me uma ponderação feita por meu irmão, Carlos Alberto, também advogado, sobre as polêmicas em torno da situação nacional. Ex-Gerente de várias agências da Caixa Econômica Federal, da qual foi ex-Superintendente  no Maranhão e no Piauí, administrador exemplar, com a visão de sua experiência, observou que,  além do prejuízo causado pelos desvios das verbas, há outro de igual monta,  que é o decorrente da própria gestão pública. Não há a mínima preocupação em gerir as instituições públicas de modo a fazer com que seus recursos sejam aplicados da melhor forma. Descaso, incompetência e má-fé levaram e continuam levando instituições e serviços públicos ao caos.
Sucateados, perdendo servidores qualificados e empanturrados com apadrinhados incompetentes, mal educados e corruptores vorazes, os serviços públicos estão em rota de autodestruição. A engrenagem da corrupção que todos sabiam existir está revelada friamente e não há nenhuma perspectiva de que seja extinta ou de que, mesmo atingida pelas operações que têm levado colarinhos brancos para atrás das grades, não estará presente nas próximas eleições, nem esteja extinta em todos os escalões, níveis e esferas de poder.
São bodes expiatórios consumidos em sacrifício para sobrevivência dos mais espertos e da própria engrenagem. Mas mesmo os condenados não são jogados nas celas comuns onde culpados e inocentes, investigados e denunciados, suspeitos e condenados cumprem indistintamente a mesma pena da confinação em espaços onde não há o mínimo de higiene para o animal mais imundo.
Ah! Mas eles merecem. São criminosos,  ainda que alguns sejam apenas suspeitos.
E esses que usam cargos públicos para desviar em benefício próprio recursos que a população paga para ter boas escolas, hospitais, saneamento básico, água e esgoto encanados, ruas e estradas pavimentadas, por que têm o beneplácito dos justiceiros?
Quanto tempo durará esse estertor? O País conseguirá sobreviver até as próximas eleições? Para eleger quem? Os mesmos? Sem caixa dois, não dá.
Por isso a defesa de um dos investigados é simplória: todo mundo faz isso, há muito tempo!
Como são as raposas que estão tomando conta do galinheiro, não será surpresa se os crimes “necessários” às eleições e reeleições deixarem o rol da legislação penal, violando o conceito de direito e de justiça.
Também não será surpresa se a população brasileira, que vem pagando o alto custo do sacrifício, perdendo seus empregos, sendo barrada nas portas dos hospitais, sem segurança para andar nas ruas ou simplesmente sentar à porta de suas casas, for levada a usar o direito que lhes confere a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em seu preâmbulo: “é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão.”
Ou, o que será pior, a excrescência da mentira e do cinismo usar esse viés para tentar levar o País a refazer a história soviética do início do século passado.
O País está nas mãos de todos nós.
 
*Advogado. Ex-Promotor de Justiça e Magistrado aposentado.

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