domingo, 7 de outubro de 2012

Viagem ao Tibet

   
Por Ige D'Aquino*

   Após um ano e meio no Tibet, resolvi dar um basta àquela vida simples e sem emoções e não suportava mais a dieta constituída basicamente de cobras,cérebro de macaco com mel, algumas folhas, frutos secos do Himalaia, cogumelos, leite de Yak*, queijo rosado de Yak, carne de Yak, e o famoso "sopão" antes de dormir, sem falar no cerimonioso chá. Perdia-se mais tempo nos preparativos do chá que no próprio almoço.
   É inacreditável, mas um graduado (9 anos de estudos) na lide das diversas ervas e prepará-las para o cerimonial que, inclui a procedência da água, de qual riacho, cascata ou fonte, do tipo de carvão para atear fogo sob a enorme chaleira de cerâmica feita da argila sagrada de Suriang Hao fronteiriço vilarejo com a China, onde todo cuidado era pouco quando escutava-se alvoroço de soldados chineses bebendo azarhu (destilado de feijão doce) e cantando. Nesses dias de folga sempre iam ao vilarejo vizinho visitar as duas únicas casas de tolerância da região,se, por um infeliz acaso encontrassem algum tibetano por ali, faziam gato e sapato do pobre coitado deixando ele nu para voltar ao mosteiro.

    E o chá,como era demorado! Uma simples infusão de ervas, sem adoçante, amargo, acre e um “aroma” que gambá era Bulgary perto dos gases fétidos que se espalhavam pelo mosteiro após a feijoada domingueira com batata doce. Uma rúculazinha, uns tomatinhos cereja, alface miúda, laranja bahia, lima, jaboticaba, lambari e bolinho de bacalhau com cerveja poderia até ser quente, o mosteiro ficava a 2634mts. do sopé himalaio. Um pãozinho frances com manteiga na chapa, um expresso ou até mesmo um cafezinho de vó, daqueles de coador de meia, doce ilusão. Enchi o saco, pedi as contas e meu dinheiro de volta. Vou para Katmandu, antes dou uma passada no Butão para cumprimentar meu amigo rei Saranki Fresnais, dou um tempo por lá e sigo em direção ao Nepal onde Alice Tarquenoise esperava por mim. Mais uma forte razão para aliviar minha culpa por ter deixado o mosteiro.

    Dois dias antes um mensageiro trouxera-me a carta de help de Alice. O plano era ir para Goa, ajudar, apoiar um amigo comum que havia perdido seu passaporte, resgatá-lo da prisão, e após uma tremenda repreensão, dar-lhe um banho com água quente, embora 39 graus na sombra, sua aparência era do Monstro das Neves, muita barba e pelos por todo corpo sujo e suarento, nada nos pés, assustava até encantador de serpentes, roupas limpas, encontrar os dólares que havia escondido e procurar o consulado ou embaixada brasileira. Assim foi feito.

    Despachamos o Dr. Helinho com cara de gente para o Brasil com conexão em Paris. —“Não vá se perder em Paris! E não transporte nenhuma erva ou substância de aparência suspeita..!". Hélio, psiquiatra curioso, experimentava tudo, todos remédios, drogas e alimentos raros. Dizia que era cobaia da humanidade. Depois desse episódio fui encontrar dr. Helinho em São Paulo no Sumaré namorando amiga minha e com a aquela barba de causar inveja a Marx. Famoso, fui consultar-me de minha recente depressão. Deu certo.

    Alice e eu saímos de Goa com dinheiro presenteado por Helinho ganho no tráfico de especiarias, canela, cravo, pimenta, açafrão em pó, cúrcuma... Alice havia terminado sua tese de doutorado do curso de antropologia, onde analisava a vocação cinematográfica do povo Indu e Iraniano. Eu queria ir para New York e livrar-me daquelas vestes sulferinas, comprar um terno, uma gravata borboleta na Brook’s Bros e visitar meu amigo Woody Allen tocando clarineta no mesmo bar, agora reaberto, e brindar o nosso retorno à vida pagã com dois (para cada um) dry martinis e, tecendo a trama para o novo filme: "O Monstro das Neves nas terras do Dalai-Lama”.

*Ige D'Aquino é artista plástico, mineiro radicado em São Paulo. Cursou escolas de artes no Brasil e no exterior, trabalhou com propaganda e publicidade, jornais, cinema e revistas de humor. Faz crônicas e escreve críticas sobre vários assuntos.

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