quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

DIÁRIO DA PROVYNCIA VI


QUARTA-FEIRA DE CINZAS & DOM QUIXOTE


Olsen Jr.

olsenjr@matrix.com.br

Para os cristãos é o primeiro dia da quaresma. Um dia para se lembrar a finitude da vida. O quanto isso tudo é transitório. Para os católicos, um dia de jejum e abstinência. Também, quando os padres sinalizam na testa dos fieis com cinza que deve ser retirada somente ao por do sol. Para o cidadão comum, o último dia do carnaval. Em New Orleans, o primeiro dia após a terça-feira gorda, o “mardi gras”... Aliás, esse é o nome do último disco do Creedence Clearwater Revival (1972) gravado em estúdio.

O carnaval brasileiro, considerando os desfiles das escolas de samba, é um fenômeno que está a exigir um estudo sério, seja filosófico, sociológico, psicológico ou apenas behaviorista, porque em nível de estética, como arte, não tem nada que se equipare. A mesmice da batida é que cansa.

Mas esse ano me surpreendeu. Estava na biblioteca lendo “Ambrose Bierce e a Dama de Espadas”, de Oakley Hall que funde – nos molde do romance histórico – fatos com ficção. No caso, recria a atmosfera da cidade de São Francisco no século XIX onde um serial killer é procurado tendo como protagonistas o conhecido jornalista, escritor e filósofo Ambrose Bierce com seu ambicioso assistente e tudo o que cerca uma boa história policial. Junte-se aí, claro, as tiradas de Bierce e você terá um bom álibi para um breve afastamento do convívio mundano.

Nessa época, levo muito à sério essa coisa da renovação apregoada pelos meus ancestrais católicos, mas fiz – por conta própria – algumas alterações no ritual: substitui o jejum pela presença de um espumante de boa procedência, sem ser afetado mas também me afastando um pouco do meramente trivial e ao desvario do contubérnio antropológico, optei pela companhia dos livros que nunca me decepcionam.

Conhecendo a grande admiração que tenho pelo Miguel de Cervantes, meu filho liga dizendo que uma escola do Rio de Janeiro está entrando na Sapucaí com o enredo sobre o Dom Quixote... Agradeço, largo o que estou fazendo e vou assistir... A “União da Ilha do Governador”, escola fundada em 1953, traz o samba-enredo “Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis”...

A empatia é imediata, o primeiro carro vem com o Cavaleiro da Triste Figura, sentado, lendo um livro de cavalaria (coisa que o autor detestava e sua famosa obra começou como uma sátira aos livros do gênero)... Ele adormece com o livro entre as mãos e todo o desvario edênico tem início...

Estou apreciando o desfile e o tema, quando decido abrir um espumante para acompanhar aquele que considero o melhor companheiro de viajem para um idealista, romântico, sonhador, enfim, de uma alma gêmea, quando apaga a luz... Pô! Exclamo, agora! Acho que é um castigo, penso, sempre digo para todo o mundo que aqui na Lagoa da Conceição sempre falta luz, água, a infraestrutura é precária, os restaurantes são caros, enfim, um lugar inadequado para se fazer turismo... Mas ninguém me acredita e agora, estava ali a purgação, logo com o meu personagem favorito...

Vou tateando até a cozinha e abro a última gaveta de um móvel ao lado da geladeira, onde guardo “coisinhas” que nunca vou precisar, mas nunca se sabe (como diria a minha avó) e encontro três pacotes de velas que estão lá desde o famoso “apagão” que deixou a Ilha no escuro... Faço três arranjos com duas velas cada e disponho os pires na cozinha, copa e sala... Abro o espumante, coisa que iria fazer de qualquer jeito, e fico por ali observando as sombras bruxuleantes nas vidraças e na mesa de mármore onde jazem algumas dezenas de livros que não pude guardar ainda.

Lá fora a chuva cai sem piedade, a cortina de água invade a varanda e tenho de fechar as portas... Lembrei logo do livro “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, do Ibañez, mas ali, a única figura desolada era eu, com uma bacia entre as mãos tentando ver naquelas silhuetas da janela, uma Dulcinéia precisando de proteção enquanto a luz não voltava para mostrar na televisão o velho sonho de Dom Quixote!


Revisão do texto:

Olá, camaradas, salve!
No tempo em que fazíamos jornal alternativo (década de 1970) valendo-se das famosas máquinas Heildelberg - alemãs - e também da tipografia (títulos e subtítulos) se dizia que durante à noite, alguns demônios invadiam a oficina e trocavam os títulos, embaralhavam os tipos, de tal maneira que a quantidadede erros nos impressos era estarrecedora...
Ah! E não adiantava revisar... Eles apareciam mesmo... Era um horror...
Brincadeiras à parte, era uma maneira de nos perdoar dos equívocos... Da ineficiência em banir as palavras escritas erradas (erros de grafia mesmo) e também, dos tipos mal colocados...
Agora, com os computadores, ficou mais fácil... Mas o castigo permanece...
O autor revisar o próprio texto é dose... Não dá... Palavra que tentei... Sou facilmente envolvido pelas ideias e logo na segunda linha esqueço a proposta de ser "revisor"...
Na última crônica, li, reli, treli... Cortei mais de 500 caracteres...
Enviei para "Os Velhos de Guerra", hoje com 170 membros...
Antes de dormir resolvo ler o texto novamente ouvindo a música do Creedence (da trilha) junto...
É de deixar o cara maluco...
Logo no terceiro parágrafo escrevo "- nos moldes do romance histórico-"... O computador corrige para "nos molde"... Fico imaginando que é um termo do tipo, "estar quite" ao invés de "estar quites" (que é a forma errada) e deixo assim... A leitura soa estranha...
No quinto parágrafo, escrevo "... escola fundada em 1953, traz o samba-enredo"... Acabo separando o sujeito do verbo, coisa de louco... Li o texto várias vezes e só percebo na hora de dormir... Mas o computador não apontou o erro...
No sétimo parágrafo, esse é imperdoável, escrevo "... o melhor companheiro de viajem para um idealista"...
Viagem escrita com "j" ninguém merece... Confundir o viajante que sou com a viagem que pretendo fazer...
O português é uma lingua indomável... Bem parecida comigo, por isso gosto dela...
Qual o idioma que consegue arrolar mais de 100 sinônimos para a palavra imbecil?
E para a palavra prostituta?
Tudo isso me alegra e me incomoda...
Alegra por ter o infinito nas mãos e incomoda por revelar a grandeza da minha pequenez...
É isso, escrevo antes que me crucifiquem... Ah! Curioso é que os escritores que me lêem nunca evocam esses erros... Porque são do ramo, sabem...
Mas é duro ter de conviver com isso... Um pequeno desabafo porque ainda não "sobrou" para pagar um revisor, um desses que não sabe escrever um poema, uma crônica, um conto, um romance... Mas enxerga longe a palavra que (pensa) pode invalidar o escrito...
Lembro: "Perto de um grande concertista sempre existe um estudante de eletrônica, intrigado como aquele estulto criador pode tirar sons tão maravilhosos daquele instrumento que ele, como técnico, conhece como ninguém"...
Um abraço nórdico, fraterno, do poeta!

Um comentário:

Anônimo disse...

Sérgio, meu caro, salve!

Se você continuar assim "matando a pau" nas ilustrações, quando voltares de Nice (prefiro assim, afinal é assim que o Scott Fitzgerald e o velho Hemingway - mais o primeiro que o segundo- nos (des)encaminharam) terás um emprego garantido...

Grato e um abração extensivo a família...

Até!