quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

MOSQUITADAS

Por Emanuel Medeiros Vieira
Para os amigos dos "sonhos de antigamente"

O funeral está em marcha.

“Nunca se sabe quem vai manusear você quando morto” (“Ulysses, de James Joyce)
Analfabetos das emoções e do tempo: sempre seremos.
Panfleto?
Não: não mais um.
Lembrar das lutas passadas, inquietação, voluntarismo – não farei isso.
E os urubus esperando a hora, os desafetos, os processos, os oficiais de justiça (justiça?) advogados, a falta de dinheiro, a velha depressão que te toma numa noite que não quer passar. – o dia não amanhece, a dor no peito, o Avaí na segunda divisão, e a tristeza que não quer ir embora.,
Sim, lembro dos anos jovens.
Sábia seria a pessoa que monotiza a existência?
“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”
(Fernando Pessoa, em seu heterônimo Ricardo Reis)
Sim, o funeral está em marcha.
Não, não apenas de um amigo inquieto, ansioso, arisco (às vezes) – mas sempre amigo.
É um funeral maior: de uma geração, da tua e da que a antecedeu (a minha), e de tantos sonhos.
Um réquiem coletivo.

Em silêncio, eu sei, muitos se rejubilam com a tua morte.
Eram inimigos fortíssimos, de vários matizes – fortes não pelo humanismo (são carecedores dele), mas pelo poder mesquinho e pela pecúnia.
Esquecem o provérbio ilhéu: há a maré e a ressaca.
E por mais máscaras que coloquem, essa gente carregará a infâmia para sempre, em seus passos, em reuniões palacianas, nos pesadelos que virão – sim, virão!
Pois colocaram sem compaixão mais uma prego na tua cruz – te ajudaram a morrer.
São os algozes que dizem estar com as mãos limpas.
Não, não estão.
O funeral está em marcha.
Mosquito: não conseguiste conviver com a traição.
Outros – pelo vil metal, pelo poder que deslumbra –, que venderam, vendem e venderão  a alma como se ela estivesse exposta numa banca do Mercado Público, não se importam.
Atribuem-se importância, mas logo serão esquecidos,e irão para a lata de lixo da História, e morrerão sem a solidariedade de si mesmos.
E para todos – todos – chegará a hora da Revelação.
(Uma Energia Maior está em vigília.)
E contam com o nosso esquecimento.
Mas o oblívio não chegará a nós.
(No natal, senti muitas saudades daqueles papos de 1982, da TV do Povo, da generosidade perdida, dos diálogos mais recentes, tentando furar a blindagem dos hipócritas e dos vendilhões.)
Não, não é nostalgia.
Tem morrido muita gente do nosso time.
Uma teia de aranha mental nos invade – a todos.
Chove em Brasília.
No mar da Lagoinha, Mosquito, conseguias rir.
Mas, no final, a vida estava pesada demais.
Mais do que os processos, a falta de dinheiro, era insuportável enxergar quase todos fechados em si mesmos, a mídia imbecilizante, o egoísmo velhaco, o mundo dirigido pelos financistas, o país dos nossos sonhos jogado na lata de lixo.
Agora serei retórico: é preciso continuar, amigo – estás fazendo muita falta.
É preciso
É preciso não esquecer, é preciso celebrar os nossos mortos (tão vivos) amados, dar um jeito de tirar a tristeza da alma e dizer: ainda estamos aqui. Ainda.
(Mosquito: talvez riste deste tom que utilizei).
Se o funeral está em marcha, a vida também é celebrada, nesta manhã, neste pássaro que agora escuto, no pão quente, no morango na cesta do piquenique que improviso com o meu filho Lucas, no mar imenso que sempre amaste, num arco-íris no céu.
(BRASÍLIA, JANEIRO DE 2012)

3 comentários:

Anônimo disse...

Isso é uma tolice!

Renato Rocha disse...

Emanoel, O conheço e sei a sorte que me foi proporcionada pelo SER MAIOR de conviver e com Voce proporcionar o melhor pará Florianópolis, ainda no SPU. O MOSQUITO NOSSO HAMILTON COM LETRAS MAIUSCULAS, E NÃO OUTROS hamiltons condenados pelos tribunais. Ele esta absolvido por Pessoas Dignas como o Senhor. Dr. Emanoel, meus respeitos ao Senhor

Fernando Evangelista disse...

Baita texto. Muito bonito, muito sincero.