segunda-feira, 2 de abril de 2012

Amigos...

Em Artigas no fim da tarde
    Numa tarde cinzenta de outubro de 1980 estivemos frente a um tribunal militar em Curitiba. Eu, o Jura e o, também jornalista, Nelson Rolim de Moura. O Jura é o Jurandir Pires de Camargo, meu sócio por 14 anos em seis jornais alternativos, produção de shows e um documentário sobre a Guerra do Contestado.

    Naquele outubro de 80 respondíamos processo na justiça militar por haver denunciado, no jornal Afinal, mais de 200 autoridades e políticos brasileiros que teriam contas bancárias na Suiça. A lista com o nome dos denunciados nos havia sido passada por um integrante da oficialidade jovem do Exército, do Rio de Janeiro. Parte da caserna estava inconformada com a corrupção na ditadura militar.

    Após o julgamento, sem sentença ainda, voltamos para Florianópolis e decidimos abandonar o país pois o risco de sermos condenados e presos era iminente. Fomos para o Uruguay. A cidade escolhida foi Artigas, fronteira com Quaraí, cidade onde nasci.

    Ficamos na "banda oriental" por três anos com um semanário bilíngue (Jornal da Fronteira) de oposição...a tudo. Anistiados em 1983 pelo general Figueiredo voltamos a Florianópolis onde criamos o Novo Jornal. Bem, depois tivemos outros jornais, em Blumenau e Florianópolis.

    Em 1986 nos separamos, amigavelmente, e cada um foi tocar a sua vida. Eu fui para Diário Catarinense e o Jura começou novo empreendimento em São José. O jornal Correio de Santa Catarina que dura até hoje.

    Neste período, até poucos dias atras, quase não nos víamos e nos falávamos pouco, às vezes por telefone, mesmo morando no mesmo bairro a pouco mais de 700 metros de distância.

    Semana passada o Jura me liga e pede uma "consultoria" sobre assuntos de fronteiras. Não só auxiliei o amigo como também me incorporei no projeto e acabamos descendo juntos, de auto, para a Fronteira com o Uruguay. O Jura nunca mais havia voltado à fronteira. Tinha saido de lá fazia 29 anos, é tempo.

    Saímos daqui num sábado às 5 da manhã e começamos a colocar a conversa em dia. Estámos fazendo uma coisa que há anos atrás era o nosso cotidiano, viajar de madrugada para imprimir jornais em alguma cidade. Vivíamos na estrada e agora, depois de tanto tempo, estávamos de novo num tiro longo de 1.110 km.

    Fomos rememorando as velhas histórias, prisões (Paraguai, Argentina), e acidentes de percusso que sempre tinham em nossas viagens. Tentamos lembrar de uma  que tivesse sido tranquila, sem problemas e não conseguimos lembrar de nenhuma. 

    A conversa foi tão boa que, há 30 km de Quaraí, ficamos sem gasolina. Havíamos esquecido de abastecer o carro em Santana do Livramento na última estação de serviço. Descemos do auto às gargalhadas. Pronto, mais uma vez não conseguíamos fazer uma viagem sem percalços!

- Fica tranquilo Jura, vou ligar para o meu amigo Dega e logo o socorro chega, falei dono da situação e com a resolução do problema na mão.

    Na mão ficamos os dois, debaixo de um sol inclemente, às 4 da tarde, num pampa desértico sem sinal de celular! Rimos muito da nossa situação!

    O socorro anda de fusca
    De Santana a Quaraí tem uma reta interminável. Uma faixa preta que apenas acompanha as elevações da coxilha. Um leve sobe e desce em uma paisagem que se repete até o cansaço. De longe avistei a miragem de um fusca. O calor do asfalto destorcia a imagem do auto. Mas não era miragem e vinha em nossa direção.

     Andava de vagar e percebi que tinha duas mulheres. Levantei o dedo pedindo carona. Elas pararam. Uma senhora, no banco da direita, carregava um "termo" de água quente e uma cuia de chimarão. Falei que estávamos sem gasolina e perguntei se me arrimavam até a cidade.

  - Sou filho da Dna. Noé, falei tentando me identificar e verder confiança às socorristas.

- Mas tu és o menor dos guris, né? me respondeu a senhora. Claro que conhecia a mãe e, pelo jeito, eu também.

    Resolvido o problema, logo estávamos, eu e o Jura, no Uruguay. Algumas pessoas nos esperavam no Obelisco, point da rapaziada uruguaia e brasileira onde se come um chivito e se toma cerveja.

    A noite fomos ao cassino e ainda ganhei uns 300 pilas numa maquininha terrível de ruim. Na saida encontramos um edil (vereador) que nos disse que pretende encaminhar um projeto para nos declarar cidadãos artiguenses por serviços prestados na área de direitos humanos.

    Quando moramos em Artigas a ditadura uruguaia ainda estava quente. Como tínhamos contatos com o Alto Comissariado da ONU no Rio de Janeiro e com  Jair Krischke, fundador e coordenador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos em Porto Alegre, conseguimos tirar do país alguns militantes do movimento anti-ditadura perseguidos pelos militares.

Bela tarde no Campeche
     Um deles vive até hoje na Suécia. Era meu conhecido de adolescência em Artigas e foi preso e torturado em Montevidéu. Sua irmã hoje é a intendente (prefeita) de Artigas.

    Não imagino o que esse título pode mudar na minha vida, mas já estou me sentindo bem importante.

    Bem, realizada a façanha em Artigas, voltamos no outro dia. A viagem foi tão ou mais agitada que a de ida. Desta vez sem problemas. Para comemorar o reencontro com o amigo convidei-o para um churrasco na minha casa, domingo. Veio a familia e amigos espanhóis do Jura. 
    
    Foi uma tarde extremamente agradável, temperatura amena, paleta de ovelha, cerveja, vinho, whisky, música boa e muita conversa. 

    Lo pasamos muy bien!

Um comentário:

Anônimo disse...

Gracias a la vida...