quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Retrato cru da desolação

Ilustração: Pedro Matallo.

O repórter Aiuri Rebello passou uma semana convivendo com os operários apresentados nesta reportagem, sem se identificar como jornalista. Por razões de segurança do profissional e para proteger as adolescentes retratadas nesta história, optamos por usar apenas nomes fictícios. Todos os eventos a seguir são reais.


ATO 1

Atrás do matagal.

Calor, poeira, pernilongos e urubus não perdoam ninguém no km 240 da obra de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, no interior perdido do Maranhão. A impressão é de que se está no lugar mais remoto do Brasil. Às 18h15 de uma sexta-feira no fim de setembro não é diferente. Os 33 graus desse fim de tarde primaveril coroam o inferno privê vivido pelos 1.140 trabalhadores de empreiteiras contratadas pela gigante mineradora Vale, todos eles escondidos debaixo de macacões vermelho-operário de tecido pesado e grosso — uma mistura de algodão e linho envolta por uma camada sintética emborrachada — , todo fechado dos pés ao pescoço e com faixas reflexivas nas mangas, tronco e pernas.

Ao meu redor, um grupo de uns 300 operários encerra naquele momento mais uma semana de trabalho extenuante em um dos trechos da duplicação dos 892 quilômetros da ferrovia que liga Carajás, no Pará, a São Luís, no Maranhão — parte do maior empreendimento minerador da Vale em todo o mundo, o S11D. A obra naquele ponto começou já faz quase dois anos. A missão ali estará terminada até o começo de 2016, e a maioria dos operários já foi ou está indo embora, seja para casa ou para uma nova frente de serviço em outro lugar, talvez, em outro trecho da própria EFC. O clima é de fim de festa, mas o que esses homens mais querem após o turno de trabalho é justamente festa, com bebida gelada e mulheres.

Tudo parece inadequado para a inclemência do calor no oeste maranhense, no limite do fim do Cerrado e início da Amazônia. Mesmo com o sol quase completamente posto, a temperatura não dá mostras de que irá arrefecer nas próximas horas. Os trabalhadores conversam, caminham ritmados e os mosquitos começam a zunir no ouvido. Todos suam bastante e urubus voam baixo em círculos ao longe. Um bafo de sauna seca domina a atmosfera, apesar do vento.

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