terça-feira, 3 de abril de 2012

CARLOS LACERDA: UM “HOMEM-OCEANO”

Por Edison da Silva Jardim Filho

    Recentemente, li um conto que não é conto e, sim, carta desesperada de amor, e uma crônica, ambos de autoria do político, administrador público, jornalista, orador, polemista e escritor- em algumas dessas atividades, até hoje inexcedível-, Carlos Lacerda.

    O tal conto que não é conto tem o título: “A despedida”, e consta do livro: “21 contos inéditos de Carlos Lacerda”, publicado pela Editora da Universidade de Brasília, que abriga o seu arquivo particular. Já a crônica intitulada: “Romantismo e Política ou Os Homens-Oceano”, faz parte do livro de crônicas: “O Cão Negro”, de Carlos Lacerda, publicado pela Editora Nova Fronteira, de que ele era proprietário.

    São dois textos magníficos, inspiradíssimos, pungentes, belíssimos (faltam-me adjetivos ), tanto na urdidura formal, quanto na abordagem dos temas, graças aos quais ora consigo emergir do embotamento criativo em que fui metido por “n” razões, que aqui não cabe nomeá-las. Um, devassa o homem naquilo que lhe é mais recôndito, o sentimento do amor, e, por isso, mais difícil de exprimir através de palavras escritas, máxime ainda para alguém, aparentemente tão durão, como era Carlos Lacerda. O outro, desvela o caráter do político, que, no caso, não deixa de corresponder à primeira grande divisão da personalidade dos seres humanos: os emocionais e os racionais. Ambos dão a exata medida do grande valor do escritor de múltiplos gêneros literários: dono de uma prosa reveladora da mais pura poesia; articulista; contista; cronista; memorialista; dramaturgo; tradutor; autor de reportagens de fôlego. Só não experimentara o gênero do romance e esse era um sonho que dizia perseguir. O torvelinho vertiginoso da vida de Carlos Lacerda não lhe deu tréguas para transformá-lo em realidade. Mas o misterioso destino humano na terra fez com que o seu neto, Rodrigo Lacerda- filho de Sebastião-, embora jovem ainda, já tenha conseguido cravar o nome na plêiade dos novos romancistas brasileiros mais talentosos e premiados ( o seu romance de estreia: “O Mistério do Leão Rampante”, foi agraciado com os prestigiosos Prêmio de Melhor Livro de Ficção da Bienal do Livro de 1.995 e “Prêmio Jabuti”, de 1.996, para o melhor romance ).

    Para possibilitar o acesso dos meus eventuais leitores- que ainda não tiveram esse imenso prazer- aos textos literários do escritor Carlos Lacerda, devo fazer um breve esclarecimento visando a plena compreensão dos trechos havidos por mim como os mais significativos do conto “A despedida”, que transcreverei abaixo. Já sessentão e mantendo um casamento de 40 anos com dona Letícia, Carlos Lacerda viveu um caso de amor com uma mulher muito mais jovem, de nome Maria Cecília de Azevedo Sodré, que, à época, trabalhava na Editora Nova Fronteira ( hoje, ela é jornalista ). Há muito tempo atrás, a revista “Veja” publicou uma reportagem de capa dando o furo, que continha, inclusive, uma entrevista com a felizarda, vamos dizer assim, e vocês haverão de reconhecer, com a leitura dos fragmentos do conto-carta de amor, que apliquei com precisão cirúrgica o “felizarda”. O conto expressa a tensão de um conflito doloroso: de um lado, Carlos Lacerda ter encerrado o relacionamento por razões tão objetivas como a sua posição ímpar no cenário político brasileiro da época, e as diferenças de idades, de mundos e intelectuais entre eles, e, de outro, a dificuldade que demonstrava para aceitar quando a jovem, enfim, se conformava com a irrepreensibilidade e inexorabilidade dos fatos. Carlos Lacerda redigiu essa carta de amor desesperado a lápis, no trajeto entre um compromisso e outro, ele que confessou: “escrevo de ouvido, como toco no piano os primeiros acordes da ária do Guarani: sinto uma força indômita.”

“Fomos desde logo dominados pela certeza de que não podia durar. Quando você acordar para a vida, que tão cedo a atormentou mas não a destruiu, já a mão da velhice fechará meus olhos. Mas a última visão seja o teu corpo fremente nas minhas mãos como se eu o criasse naqueles exatos minutos.”

“Serei sempre um intruso onde ela estiver à vontade, pensei e penso ainda. Um senhor desembarcado de outro planeta, no mundo em que ela se sente natural, lago em que ela voga, como navegará este barco cheio de cargas e lembranças de insólitas navegações?”

“A leviandade da minha decisão e sobretudo o egoísmo, haverá quem até os qualificarão, entre risos, de desvario – os excessos da fantasia alheia, ninguém admite nem perdoa. Os equívocos naturais, a propósito de nossa idade. Os menos naturais, o comentário visível, ainda que inaudível, o sorriso disfarçado, a amabilidade contrafeita, o fingimento de não ver, tudo isto previ, tudo isto já estava enfrentando antes mesmo que se colocasse à nossa frente; tal como tantas vezes fecho os olhos na escuridão para me habituar à cegueira e meço de memória a distância entre os móveis e a parede.”

“Temi não ter assunto para você, ou ao contrário, ceder às tentações de brilhar, de contar casos e histórias, ser personagem de relevo aos teus olhos para seduzir, para me exibir.”

“Devia acabar, não sei. Mas tinha de acabar, eu sei. E fui o primeiro a lhe dizer. Não por mim. Se de começo pensei também em mim, não tardei a verificar que da vida só me resta esse prêmio, por inesperado e imerecido que seja, e até maior quanto mais imerecido. Mas, por você mesmo é que teria de acabar. Foi o que lhe disse e agora tenho raiva de ter contribuído para a sua evasiva, a sua fuga, a sua recusa – em suma.”

“Quando você me disse que não dura muito cada amor que tem, não acreditei nem um minuto, porque vi logo que era o seu modo de tranquilizar, de me dizer que não queria criar nenhum problema para mim. Em suma, você se conformava com a simples aventura de duração indeterminada, mas sempre curta. Agora me diz o oposto, e eu sei que agora é que diz a verdade. Na sucessão de pretextos e desculpas com que você se debate e se defende, surge mais uma, a de que não ama bastante – e seus olhos, no entanto, não choram por piedade – a não ser que seja a pena de achar que tem de me dizer mais essa mentira piedosa para acumular dificuldades no caminho que queríamos abrir um para o outro, um ao encontro do outro.”

“Eu sei que tais coisas acontecem, esse clarão como o das fogueiras antes de apagarem. A certa altura da vida se envolve a pessoa no sinal, no gesto, no cheiro de outra muito mais moça; e isto vale para homem e para mulher, vale para quase todo mundo, sobretudo para quem é muito carente e ao mesmo tempo tem muito para dar.”

“O pior é essa maldita coerência, essa desengonçada honestidade que me obriga a concordar contigo cada vez que você recua, mesmo que seja para sempre. Pois é, eu bem te avisei, tem toda razão de recuar, de não querer ir além. Será honestidade, será coerência? Pensando bem, temo que seja mais uma espécie de embuste, um ardil contra mim mesmo. Uma vez que não vai durar, e vai acabar tudo antes que meu amor acabe, melhor é interrompê-lo bruscamente, me defender como se a estivesse defendendo a evitar lentas agonias.”


    Na crônica: “Romantismo e Política ou Os Homens-Oceano”, Carlos Lacerda dá os traços de personalidade dos políticos românticos e faz a exaltação de um seleto grupo deles: Silva Jardim ( é o primeiro da lista ), Teófilo Ottoni, Maurício de Lacerda ( pai de Carlos Lacerda ), Virgílio de Melo Franco, e o episódio dos 18 do Forte de Copacabana. O meu antepassado, Antônio da Silva Jardim ( nasceu na Vila de Capivari, hoje município Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro- a importante rua Silva Jardim, de Florianópolis, situada no bairro Prainha, recebeu o nome em sua homenagem ), foi o Carlos Lacerda da década de 80 do século XIX, durante o desenvolvimento das campanhas pela abolição da escravatura e pela proclamação da República, em contraposição aos políticos realistas, sem ideais, pragmáticos, medíocres, rotineiros, estes que dilapidam, cotidianamente, os nossos sonhos de nação e de pátria mais legítimos. Carlos Lacerda, leitor voraz que aplicava o método da leitura dinâmica, leu, certamente, o livro: “O Homem Medíocre”, de José Ingenieros, publicado em 1.913, que tanto já citei nos meus artigos. Da mesma forma que fiz com o conto, passo a reproduzir alguns dos trechos que considero ilustrarem, pelo brilho mais fulgurante ( como se isso não fosse o estado normal de Carlos Lacerda ), a crônica “Romantismo e Política ou Os Homens-Oceano”.

“Mas sempre, a marca do romântico é uma preocupação genérica com a Vida e a Morte, a Humanidade (assim mesmo, com H grande), uma retórica especializada, individualismo; pois o romântico se preocupa, antes de mais nada, com sua própria imagem. Tem qualquer coisa de Narciso. Como Hamlet. Mas, só atinge a grandeza quando faz da preocupação com a sua pessoa um sinal de que se insere no drama social do seu tempo – ‘persona’, isto é, intérprete.”

( Vitor Hugo ) “definiu melhor do que ninguém a si próprio e a todos os grandes românticos, ao escrever – a propósito de Shakespeare, justamente considerado um precursor do romantismo: ‘Existem homens-oceano’. Imitando o seu estilo poderíamos improvisar um texto sobre a imensidade desses homens, seus mistérios e atrações, o rolar permanente e profundo de sua imaginação e de suas ideias, a atração que exercem, os imitadores que suscitam, o temor que provocam, o desafio que representam, a inevitável presença, que nem querendo conseguem encobrir; a força que, mesmo sem querer, desenvolvem.”

“Silva Jardim, o abolicionista e republicano, caravaneiro, missionário político, orador da Abolição e da República, acaba – como o invejariam os românticos reconhecidos como tais! – engolido pelas lavas do Vesúvio, em Nápoles. Poucos homens foram tão injuriados em vida e esquecidos na morte quanto esse grande romântico da política, que sacudiu com o poder do verbo a pasmaceira da escravocracia, a rotina da iniquidade que deu com o Império no chão, arrastando tudo o que tinha de bom e improvisando a República dos chefetes sem imaginação, dos anti-românticos bem sucedidos, cuja ambição pessoal lhes insufla prudência e mediania mas lhes arrebata o poder de arrebatar, privando-os da capacidade de inspirar o povo. São vencedores – mas não conseguem aliciar ninguém capaz de dar sentido geral aos atributos meramente pessoais de suas mesquinhas vitórias. Incapaz de formar líderes novos, acabou por se socorrer de Conselheiros do Império para transformá-los em presidentes da República. A queda na cratera do vulcão foi bem o fim de um romântico apóstolo político.”


“Há todo um ensaio a escrever sobre o tema. Aqui apenas dou notícia dele. Pois meu destino, como diria um romântico, não é historiá-lo, parece que é vivê-lo. Plenamente, por mais que eu faça.”

    Nem Getúlio Vargas ou Samuel Wainer haveria de negar que Carlos Lacerda foi o político brasileiro cuja atuação se constituiu no próprio retrato, sem retoques, do texto que ele mesmo se propôs a improvisar à conta de imitação do estilo de Vitor Hugo, sobre o significado dos “homens-oceano”.

Léo Vitorino - Texto espetacular para um personagem lumininoso de nossa história. Lacerda foi um gênio; foi, entretanto, abolido de nossos anais, de nossa lembrança. Obra da canalha à solta, da patrulha ideológica intolerante. Por que não se fala em Lacerda, o mais fulgurante político brasileiro? Por fim: guardadas as proporções de local, época e espaço, Jardim (o autor) é o Lacerda de Florianópolis, detentor de todos os atributos daquele que derrubou uma gama de presidentes. em CARLOS LACERDA: UM “HOMEM-OCEANO”

L. A. Caro Canga, desqualificar a vida de Lacerda é pura covardia. Queria ver fazê-lo enquanto vivo. Não teria coragem. Seu espírito golpista é inconteste, todavia, deve ser interpretado de acordo com a época; tem de ser contextualizado. Ademais, chamar Lacerda de golpista e na mesma frase chamar o implacável ditador Vargas de coitado é o fim da picada. É a pura incoerência. Quem foi Vargas senão um tirano temível entre 37 e 45? Estabilizou o país à custa de quanto sangue? Coitada de Olga Benário. Abraços a todos, em especial ao Jardim e ao Nei, de quem sou fã. em CARLOS LACERDA: UM “HOMEM-OCEANO”

Olá Edison
Excelente lembrança deste HOMEM , em tempos de SIMULACROS BIOGRÁFICOS. Gostei muito de ler a biografia do Carlos Lacerda aos olhos da tua lupa!
ABRAÇO
Vera Regina Pereira de Andrade

Comentário de EdisonJardim:
Canga,
 Fizeste muito bem em publicar, democraticamente, abaixo do meu último artigo, o comentário anti-lacerdista de Nei Duclós, do qual sou leitor assíduo, por considerá-lo um dos estilos mais requintados do jornalismo e da literatura catarinenses. Sendo advogado, gosto do contraditório. O Carlos Lacerda que eu idolatro não é o dos equívocos históricos, mas, sim, o da inteligência insuperável.
 Abraços e ótimo aproveitamento em sua viagem ao Chile.

 Nei Duclós deixou um novo comentário sobre a sua postagem "CARLOS LACERDA: UM “HOMEM-OCEANO”": Pobre Getulio, pobre Samuel Wainer, vítimas do golpista mestre, colocados aqui à revelia, nesta celebração do mais nefasto político do Brasil, que desestabilizou o país até formatar a monstruosidade de 1964. 

4 comentários:

Nei Duclós disse...

Pobre Getulio, pobre Samuel Wainer, vítimas do golpista mestre, colocados aqui à revelia, nesta celebração do mais nefasto político do Brasil, que desestabilizou o país até formatar a monstruosidade de 1964.

Anônimo disse...

Não é possível lembrar Carlos Lacerda e esquecer o político golpista. A ditadura que vitimou centenas de pessoas, torturou,censurou a imprensa, proibiu a liberdade de expressão e calou de forma brutal a oposição, teve em Lacerda um inspirador e provocador. Alguma semelhança com Shakespeare? Talvez, numa farsa. Ironicamente, também foi afastado da política pelos militares. Logo ele, que pensava em se beneficiar, ocupando os espaços vazios deixados com a cassação de políticos melhores do que ele.

As. Luiz Fonseca

Anônimo disse...

Texto espetacular para um personagem lumininoso de nossa história. Lacerda foi um gênio; foi, entretanto, abolido de nossos anais, de nossa lembrança. Obra da canalha à solta, da patrulha ideológica intolerante. Por que não se fala em Lacerda, o mais fulgurante político brasileiro? Por fim: guardadas as proporções de local, época e espaço, Jardim (o autor) é o Lacerda de Florianópolis, detentor de todos os atributos daquele que derrubou uma gama de presidentes.

Anônimo disse...

Caro Canga, desqualificar a vida de Lacerda é pura covardia. Queria ver fazê-lo enquanto vivo. Não teria coragem. Seu espírito golpista é inconteste, todavia, deve ser interpretado de acordo com a época; tem de ser contextualizado. Ademais, chamar Lacerda de golpista e na mesma frase chamar o implacável ditador Vargas de coitado é o fim da picada. É a pura incoerência. Quem foi Vargas senão um tirano temível entre 37 e 45? Estabilizou o país à custa de quanto sangue? Coitada de Olga Benário. Abraços a todos, em especial ao Jardim e ao Nei, de quem sou fã.