quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os penicos do padre Almeida

Do blog de Carlos Alberto Lima Coelho

 

O padre Almeida foi um paulista de grande coração e riqueza. Ajudou frei Galvão, mandou fundir 100 penicos de prata e sua memória serve à invocação do próprio São Frei Galvão, que com seus milagres pode realizar a salvação do Corinthians e do Brasil 

Claudio Lachini
Editor Sênior
Economia Interativa

 
    O padre Guilherme Pompeu de Almeida, secular paulista, foi o maior abastecedor das Minas Gerais, tanto de prendas quanto de prebendas, que vendia aos mineradores. Enricou tanto que, conta Roberto Pompeu de Toledo em seu livro “A Capital da Solidão – uma história de São Paulo das origens a 1990″, sua casa paulistana tinha 100 quartos, nos quais hospedava Deus e o mundo.
    Debaixo de cada cama dos 100 quartos mobiliados havia um mimo especial para os hóspedes de tão santa figura: penicos de prata, 100 de contados, que sua reverendíssima mandara fundir nas minas de Potosi, no vice-reinado espanhol do Perú. Padre Almeida foi dos mais ricos mineradores sem nunca ter posto os pés nas Gerais. Ele emprestava dinheiro a juros, afora traficar escravos e atender aos aventureiros em tudo do bom e do melhor que desejassem. Para isso, tinha uma rede de informantes e negociantes espalhados pelo mundo.
    Padre Almeida gostava de mulheres e deixou uma filha reconhecida, que casou bem, embora não lhe tivesse feito herdeira. As Ordenações do Reino proibiam herdeiros ditos bastardos. E a filha do padre seria, que me corrijam os doutos , uma bastarda da Igreja Católica, que usufruiu dos bens e da sagacidade do reverendo em vida e depois de sua morte. Naquele tempo “a mulher do padre” estava ainda distante da sociedade de consumo e se dizia que um bom sacerdote havia casado com a Santa Madre, assim como uma freira tinha por esposo Jesus Cristo.
    Os paulistas do século XVII vasculharam seu imenso território e descobriram ouro aos montes, primeiro na que viria a se chamar Vila Rica, lá onde ficavam as minas gerais, porque as havia de outros metais, depois, no século XVIII, em Mato Grosso e em Goiás, coisas do Anhanguera, tanto o pai quanto o filho, assim chamados pelos índios porque tinham a ver com o capeta. Ameaçavam botar fogo na água por qualquer dá aqui aquela palha. Na verdade, queimavam álcool, essa vocação de boca e de escapamento nacional!
    Naquele tempo aurífero o padre Almeida já obrara seus penicos de prata, e do metal deu ajuda a seu confrade, o frei Galvão, necessitado de obras pias para umas filhas de Maria que de um convento careciam, a fim de alojar moças prendadas, para as quais não tinha freguesia. Aquilo que era padre, minha gente! Dava ele razão ao dialético Santo Agostinho, para quem o mal trazia dentro de si o bem e o bem dentro de si o mal.
    E tantas fez o frei Galvão que hoje é Santo Antonio de Sant’Ana Galvão, fundador do convento da Luz, e talvez único posto em milagres capaz de salvar a candidatura de José Serra à Presidência da República. Que se cuide o candidato natural de São Paulo, porque frei Boff anda dizendo que Marina Silva e Dilma Roussef foram ungidas pela mãe Terra, e uma delas será capaz de fazer salvamentos dos quais os homens se mostraram incapazes. Uma ou as duas, que frei Boff é pessoa de até o papa enfrentar.
    Em tempos tão bicudos e em eleições tão marretadas, venho aqui propor que se crie o troféu “Penico de Prata”, a ser conquistado para quem doar uma certa e supimpa quantia de dinheiro à construção do estádio do Corinthians Paulista. Se se perde a abertura da copa, que será do restante da casa? E se a dita abertura for para Minas Gerais, como foram os Emboabas a guerrear, que nos restará? Valha-nos São Frei Galvão, suas pílulas de papel e os penicos de prata do reverendo Almeida! Se os cariocas, ou em território da CBD, derreteram a taça Jules Rimet, que se cuidem dos penicos de tanta conta, troféus lídimos de um país onde primeiro vicejou o “samba do crioulo doido” e agora estampa-se a crônica das evocações tresloucadas, na qual a Leopoldina virou um entreposto onde se come sopa de cebola.

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