sexta-feira, 20 de março de 2009

A Batalha da Praia dos Castelhanos



Depois do post sobre as escaramuças na fronteira do Brasil com o Uruguai que coloquei abaixo muitas lembranças afloraram na minha cabeça. Os dois países se enfrentaram durante anos em várias batalhas. A disputa de terras entre Portugal e Espanha envolvia o Brasil colônia e a chamada Províncias Unidas do Rio da Prata que pertencia ao vice-reinado Espanhol com sede em Buenos Aires desde 1816.
Nessa disputa uma batalha, desconhecida dos grandes historiadores mas nem por isso menos importante, me veio à memória. Passou para a história com o nome de A Batalha da Praia dos Castelhanos.

O importante fato histórico se deu lá pelo ano de 1967. Fundei um time de baby-futbal (sete jogadores) chamado de Spartacus F.C. A sede era na minha casa em Quaraí. O objetivo era ampliar as modalidades de disputas entre nós e os uruguaios (castelhanos). A princípio íamos para Artigas para brigar e provocar escaramuças. Invariavelmente saíamos correndo em direção a uma pequena ponte que ligava os dois países. Atrás, pedras e gritos. Os castelhanos nunca atravessavam a fronteira para Quaraí. Quando encontrávamos um desgarrado era um corridão com pau e pedra até a ponte, que chamávamos de Planchada.
Nós não tínhamos como evitar a invasão. Artigas sempre foi uma cidade maior, bonita, tinha dois cinemas (Cine Aida e Cine Artigas), belos cafés-confiterias e as castelhanas eram lindas hablando espanhol.
Nos sábados a Praça de Esportes em artigas, já embaixo da ponte nova, fervia de jovens praticando esportes e fazendo piquenique perto do rio Quaraí. Tinha o Parque Rodo com um lago e passeios de barco e depois, na margem do rio, a famosa Praia dos Castelhanos. Era tudo muito bem urbanizado e cheio de árvores.
Na primeira investida esportiva a Artigas chegamos com o time uniformizado e ficamos acompanhando as disputas. Logo desafiamos uns ganhadores. Desafio aceito fomos para o campo e levamos uma surra de gols. Terminado o jogo logo detectamos alguns desafetos, inclusive um que eu e meu irmão tínhamos pego "desgarrado" em Quaraí. A coisa começou a ficar ruim. Estávamos em desvantagem numérica e começamos a nos retirar sorrateiramente. Só que em vez de fazer a retirada em direção à ponte saímos para o lado da Praia dos Castelhanos. E um irresponsável suicída do nosso time resolve cantar o nosso hino de guerra:
castelhano pé de chumbo, calcanhar de frigideira, quem te deu a liberdade foi a terra brasileira.
Pronto! Estava armada a batalha. Enchi as mãos de pedras e corri em direção ao rio. Mas já descemos na Praia abaixo de tempo ruim. O guri desgarrado, aquele, vinha a frente dos revoltosos e aos gritos de brasileño mugriento incitava a turba multa. Levei duas pedradas. Uma nas costas e outra na cabeça. Mesmo assim consegui me jogar na água e atravessa até a "península" e depois varar para o outro lado, a minha pátria. Naquele dia muita agente aprendeu a nadar na marra. Foi das batalhas mais sangrentas que participamos. Fiquei muito tempo sem ir à Artigas. Ressabiado. Depois disso voltei, já mais taludinho, e comecei grandes amizades com os castelhanos. Tenho amigos e cumpadres que visito e me visitam regularmente. Adoro os pés de chumbo.

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